Venezuela desbloqueia sites de notícias censurados há anos
Vários sites de notícias que estavam censurados há anos na Venezuela foram desbloqueados nesta quinta-feira (17) pela agência reguladora das telecomunicações. Seus diretores comemoram terem sobrevivido ao silêncio digital.
O anúncio foi feito horas antes do início da segunda rodada de negociações políticas entre o governo interino e a oposição, que abordará o tema da liberdade de expressão.
"Conseguimos resistir, conseguimos inventar e chegamos vivos a este momento", celebrou Víctor Amaya, diretor do portal TalCual, bloqueado desde julho de 2024.
Oito meses após uma intervenção dos Estados Unidos para capturar Nicolás Maduro, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) anunciou em seu site o "restabelecimento formal do acesso a diversas plataformas e veículos de comunicação digitais nacionais e internacionais".
Jornalistas e ONGs denunciam há anos o bloqueio de sites como um mecanismo de censura, o que sempre foi negado pelo governo Maduro, acusado de narcotráfico em um tribunal de Nova York. Para acessar esses sites na Venezuela, era necessário usar uma VPN.
- "Estavam censurados" -
Para Luis Ernesto Blanco, diretor editorial do Runrunes, "há um reconhecimento" por parte da autoridade reguladora de que "estavam censurados, basicamente porque quis. Não havia uma resolução administrativa, uma ordem judicial que o exigisse."
O diretor do TalCual, cujo portal foi liberado apenas por algumas empresas de telecomunicações, expressou ceticismo quanto à possibilidade de o bloqueio ser suspenso para todos os veículos punidos. "Tomara que não aconteça como em algumas libertações de presos, em que 100 são anunciadas, mas 60 ou 70 são verificadas", disse Amaya, via WhatsApp.
O jornalista lamentou que seu veículo tenha perdido 60% do tráfego e que os anunciantes tenham se afastado, por medo de serem punidos por autoridades. Ele manifestou esperança de que a medida permita ao país "ter um ambiente de comunicação normalizado".
O site de notícias NTN24 confirmou mais cedo que estava acessível na Venezuela, mas depois disse que estava intermitente. Outros veículos relataram o mesmo. El Nacional, Efecto Cocuyo e El Pitazo também foram removidos da lista de censura.
- Anos de "confronto" -
A ONG de direitos digitais VE Sin Filtro verificou o acesso a 17 portais em vários provedores de internet. Ela ainda registra 188 sites bloqueados no país, entre eles 79 veículos de notícias.
"Devemos divulgar as páginas que não estão no ar na Venezuela", disse à TV estatal o vice-ministro de Gestão da Comunicação, Gustavo Villapol, o qual defendeu que "a polarização" seja deixada para trás e que "os anos duros de confronto" na Venezuela sirvam de aprendizado. "Não podemos mais vilipendiar pessoas sem ter provas nas mãos. Não podemos usar a comunicação para interesses externos ao sentido vital da nossa nação."
A chefe da delegação opositora nas conversas, Dinorah Figuera, saudou a decisão. "Este é um primeiro passo. Muitos meios de comunicação ainda estão ausentes e todos precisam retornar, integralmente e em definitivo", esclareceu.
Apoiada pelos Estados Unidos, a mesa de diálogo político busca avançar para uma trasição democrática. A medida de hoje havia sido recomendada horas antes pelo Programa para a Paz e a Coexistência Democrática, uma organização não governamental criada pela presidente interina, Delcy Rodríguez, que governa sob pressão de Washington.
Antes do início das mesas de diálogo, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ressaltou, em junho, que parte da recuperação da Venezuela passava por "criar as condições para uma imprensa livre e independente".
L.Panchal--BD