Diplomata brasileiro leva experiência de Gaza para missão consular em Lisboa
Domingo, 25 de outubro. A Cidade Universitária é tomada por dois “exércitos”, com o futuro do Brasil em suspenso na mais acirrada eleição presidencial da história.
Domingo, 25 de outubro. A Cidade Universitária é tomada por dois “exércitos”, com o futuro do Brasil em suspenso na mais acirrada eleição presidencial da história. E Lisboa no epicentro da disputa, palco da maior zona eleitoral brasileira no mundo, com quase 80 mil eleitores. O que poderia ser o sinal de uma possível “guerra”, contudo, transcorre em tranquilidade e segurança. Uma paz fruto da experiência de quem viveu e teve de tomar decisões precisas e rápidas numa guerra de verdade. Responsável por organizar a eleição brasileira na capital portuguesa, o cônsul do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, valeu-se do que aprendeu durante o período em que foi embaixador do país numa das zonas mais conflituosas do planeta: a Palestina.
Sign up for our free newsletter. “O que vi e vivi na Palestina me fez aprender a dar o sentido exato à palavra guerra, muitas vezes empregada de forma mais abrangente e equivocada, retirando o seu peso”, revela o pernambucano de 60 anos, desde 2025 o responsável por gerir a atividade diplomática envolvendo a maior comunidade imigrante do país.
O cônsul sabe: a guerra ficou para trás, mas a “missão” em Lisboa igualmente passa por gerir os conflitos provocados pelo aumento das tensões decorrentes da onda de xenofobia na Europa, na qual Portugal obviamente não está imune – e que, em alguns casos, tem elevado o tom entre a comunidade brasileira e os portugueses. Uma das maiores preocupações do cônsul têm sido o crescimento das investidas de bullying contras as crianças brasileiras nas escolas de Portugal, que o levou a executar em 2026 o projeto Amigos e Amigas do Brasil, envolvendo estudantes não só de instituições de Lisboa, mas igualmente cidades como Leiria, Torres Vedras e Belmonte. A ideia? Premiar a melhor atividade em grupo nas áreas de redação, desenho e vídeo.
A tentativa diplomática de apaziguar os ânimos estende-se à literatura. Não só recebendo escritores brasileiros que vivem em Portugal em saraus mensais realizados no consulado, mas ainda através do lado escritor do cônsul. Agora em outubro, foi publicado A Carta de Pero Vaz de Caminha e o seu Espelho, o curioso exercício literário de imaginar uma carta escrita por um originário brasileiro em paralelo à publicada pelo escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral ao chegar ao Brasil em 1500.
“Um pequeno texto, fruto de um discurso feito para um evento na Torre do Tombo, que eu costumo chamar de pequeno manifesto anti-eurocêntrico”, brinca. Entre manifestos e ações, Alessandro parece disposto a construir pontes. E igualmente a abrir portas. A começar pelo próprio consulado, instalado num belíssimo palacete no Chiado, onde antes havia funcionado um cinema e um teatro.
O primeiro ano de atividade marcou a reabertura ao público para visitas e eventos do terraço do prédio – ou rooftop como manda a atual semântica cool – com uma invejável vista para uma belíssima Lisboa. Belíssima e pacífica Lisboa.
Alessandro folheia o livro onde se vê a imagem de duas crianças com fisionomias árabes segurando uma bandeira do Brasil, prestes a embarcar num avião. São duas entre as centenas de vidas salvas do conflito recente em Gaza graças à atuação emergencial coordenada pelo antigo embaixador na Palestina. Nos tempo que passou na embaixada brasileira em Ramallah, na Cisjordânia, entre 2020 e 2024, Alessandro teve de conviver com a crise mais grave entre israelitas e palestinos, iniciada em 2023, quando a 7 de outubro uma investida terrorista do Hamas a um concerto nas proximidades da Faixa de Gaza deu início a um banho de sangue na contraofensiva de Israel.
Durante o decorrer de apenas um mês, o então embaixador organizou a retirada dos aproximadamente 100 brasileiros em Gaza, numa operação delicada e complicada envolvendo a remoção de homens, mulheres e crianças do norte ao sul do território por entre a chuva de mísseis israelenses que seguiram no encalço do cortejo brasileiro. “Duas vezes por ano, a embaixada montava um consulado itinerante na cidade de Gaza e a partir daí foi possível monitorar a comunidade”, explica Alessandro, que durante o Mundial de 2022 deslocou-se até a região para assistir aos jogos do Brasil, sem imaginar o que viria pela frente.
“O período mais crítico da remoção foi a espera em Rafah, na fronteira com o Egito. Os brasileiros estavam hospedados numa igreja católica aguardando a orientação do governo egípcio. Todo dia saía uma pequena lista com os nomes liberados, enquanto as bombas se aproximavam”, relembra Alessandro. Felizmente para os brasileiros, não houve nenhum ferido. E a maior repatriação de brasileiros numa zona de guerra, organizada por Alessandro em articulação com a Força Aérea Brasileira (FAB), está documentada na publicação Voltando em Paz, do governo brasileiro.
As memórias desse brasileiro na Terra Santa igualmente estão e um outro livro, esse de autoria do então embaixador, Peregrinações & Guerra. Memórias que ainda emocionam o diplomata.
Como a história da última brasileira a ser retirada de Gaza, uma mulher grávida de nove meses impedida de embarcar devido à gestação, é lembrada com emoção devido a um contexto bíblico bastante familiar entre os católicos, mas que teve um desfecho inesperado. “Grávida, ela percorreu parte do trajeto entre Gaza e o Egito numa carrocinha puxada por um burro, quase como Maria na Bíblia, para dar a luz em plena noite de Natal. O simbólico nessa versão da história foi essa mãe ter batizado o filho de Maomé, o nome do profeta muçulmano”, relembra.
A história da mãe brasileira grávida comove o pai Alessandro. Ao partir de Jerusalém, onde vivia com a família durante os serviços diplomáticos, o embaixador foi confrontado com a decisão da filha de 24 de não ir para Lisboa e permanecer em Israel para concluir os estudos. “Claro que preferia que ela vivesse connosco em Portugal. Mas os filhos, sabem como são, nunca obedecem aos pais”, explica. E assim, mesmo na paz em Lisboa, Alessandro segue a monitorar os brasileiros, especialmente a filha, num território em guerra. Do Médio Oriente, trouxe um antigo telemóvel com uma aplicação de red alert instalada, na qual se acompanha numa espécie de Google Maps as zonas em risco de bombardeamento em território israelense.
O último deles posicionou o pino de localização próximo onde a filha mora e estuda em Tel Aviv. “Eu nunca me habituei aos alertas e sirenes para buscarmos abrigo nos bunkers mas, infelizmente aos que vivem na região, é uma situação corriqueira”, lamenta o pai Alessandro, o telefone com o red alert e o mapa coalhado de pinos vermelhos nas mãos. O chapéu de couro típicos dos vaqueiros nordestinos repousa no cabide do escritório do cônsul brasileiro em Lisboa, acompanhado de um cachecol. A inusitada combinação entre as indumentárias de um sertanejo e um europeu resume a trajetória de um homem acostumado a adaptar-se à rotina nómada diplomática.
Nascido no Recife em 1966, aos 5 anos o pequeno Alessandro mudou-se para o Rio de Janeiro, seguindo a sina de muitas famílias nordestinas em busca de uma oportunidade no sul do Brasil. “Meu pai foi trabalhar na construção civil e levou a família”, lembra o cônsul, que retornou à capital pernambucana anos depois, já adulto, em busca de um diploma. Foi então estudar na Faculdade de Direito do Recife, a primeira universidade jurídica do Brasil, criada em 1827, onde passaram nomes incontornáveis da história do país, como Joaquim Nabuco, Castro Alves, Paulo Freire, Assis Chateaubriand e o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira e que nomeia o instituto que forma os futuros diplomatas.
O Barão do Rio Branco que, no quadro pendurado à parede ao lado do chapéu de couro no cabide, completa a decoração do escritório do advogado que nunca advogou. “Logo após me formar em direito, entrei no Instituto Rio Branco e comecei a vida diplomática”, conta. Uma vida com escalas em Brasília, Paris, Buenos Aires, Palestina e agora Lisboa. A capital portuguesa é a primeira experiência do embaixador chefiando um consulado. Parece a mesma coisa, mas não é. Ao contrário da Embaixada do Brasil, responsável pelas relações institucionais com Portugal, o consulado é uma espécie de imenso cartório, com a tarefa de emitir documentos e gerir a vida prática da comunidade no país.
Uma comunidade que é um verdadeiro país dentro de outro. conforme a AIMA, o número oficial de brasileiros em Portugal ronda os 500 mil integrantes, embora a vivência demonstra que esse número facilmente pode chegar ao dobro. Isso porque os milhares de brasileiros portadores da cidadania portuguesa “desaparecem” do radar do governo português, assim como os detentores de outros passaportes europeus.
Entre eles, o passaporte italiano. Tanto que há um consenso de os brasileiros que entraram no país como “italianos” terem ajudado a Itália assumir o o posto de maior comunidade imigrante europeia em Lisboa e em Portugal. Na prática, contudo, essas dezenas de milhares de brasileiros “portugueses” e “italianos” continuam a demandar os serviços consulares.
A gestão desse enorme contingente tem feito do Consulado Geral do Brasil em Lisboa uma espécie de vanguarda da diplomacia brasileira. “As experiências propostas pelo Itamaraty costumam ser implementadas primeiro aqui para se perceber como ocorre, antes de ser replicada em outros países”, explica o cônsul. Foi assim com a decisão de não mais imprimir in loco os passaportes, agora confeccionados na Casa da Moeda no Brasil, dotada de melhores dispositivos de segurança contra a falsificação.
Ou ainda a emissão no estrangeiro da carteira de identidade e CPF – equivalente ao cartão de cidadão e ao NIF português – além da carta de condução e o título de eleitor, o documento que permite o brasileiro de participar das eleições presidenciais, como aconteceu em duas voltas durante o mês de outubro. Uma megaoperação que exigiu a concentração de forças dos aproximadamente 50 funcionários do consulado. Afinal, a sessão eleitoral na Cidade Universitária em Lisboa é a maior do mundo, com Quase 80 mil eleitores. Para se ter uma ideia, em território brasileiro, o maior local de votação fica em São Paulo, com 21 mil votantes.
Para dar conta do aumento de 74% dos eleitores brasileiros em Lisboa, entre os 45,3 mil em 2022 para os atuais 78.833 em 2026, o consulado expandiu o número de urnas e os locais de votação. Antes limitado à Faculdade de Direito, a eleição estendeu-se aos prédios da Reitoria e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Para além da burocracia, Alessandro Candeas tem aproximado a sua gestão consular dos problemas reais dos brasileiros. Aos eventos literários e aos programas de combate ao bullying nas escolas – que ganhará uma nova versão em 2027 – soma-se o importante apoio às mulheres brasileiras.
O consulado criou em 2026 o Espaço da Mulher Brasileira (EMub), uma iniciativa não só de acolhimento e aconselhamento contra a violência doméstica e o risco de feminicídio, através da campanha Você tem Voz – permitindo inclusive o acesso direto a partir de Portugal à linha telefónica gratuita 180 no Brasil -, mas igualmente de promoção do planeamento da carreira profissional e empreendedorismo das imigrantes brasileiras. A agenda lotada no consulado não impede o nordestino saudoso da comida e do carnaval pernambucano na imersão na cultura portuguesa. Um dos seus interesses têm sido a história de Portugal, especialmente a que liga os dois países.
Como o périplo dos judeus sefarditas, expulsos durante a Inquisição em Portugal e que migraram para os Países Baixos antes de aterrarem no Recife, durante a ocupação holandesa no Brasil. Os mesmos que, novamente expulsos pela Reconquista, embarcaram para a América do Norte e acabaram por fundar a cidade de Nova Iorque. “Do ponto de vista histórico, acabou por ser a colônia brasileira mais bem sucedida”, brinca o cônsul, deixando por alguns segundos de lado o rigor diplomático, contagiado pela realidade pacífica em Lisboa em contraste com um passado recente onde a guerra e a morte faziam parte da sua rotina profissional.
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades, conta histórias que ninguém conta e muda vidas. Se gosta do que fazemos e acha que é importante, se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,apoie-nos com a sua contribuição:
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