'Trump nos traiu', eleitores latinos do Arizona se afastam do presidente
Há dois anos, Fernando Núñez percorreu casa por casa, sob temperaturas de 40 °C no Arizona, para ajudar Donald Trump a voltar à Casa Branca. Mas, nas eleições de meio de mandato da próxima semana, ele não votará nos candidatos apoiados pelo presidente.
"Trump nos traiu, deu uma guinada de 180 graus", protesta o americano de 22 anos, de família mexicana.
As promessas do bilionário republicano o haviam convencido: reduzir os preços, pôr fim às guerras no exterior e divulgar integralmente os arquivos de Jeffrey Epstein.
Agora, ele está indignado com a falta de transparência do governo sobre o caso do criminoso sexual, assim como com a guerra contra o Irã, que encarece os combustíveis e alimenta uma inflação persistente, acima de 3%.
“Gasolina, seguro, comida: tudo subiu e está mais caro do que nunca”, reclama o vendedor, que afirma ganhar 1.600 dólares (8.600 reais) por mês.
"Supostamente, não deveríamos estar em guerra com o Irã. Só estamos nessa guerra por culpa de Israel", acrescenta.
Em 3 de novembro, Núñez afirma que votará em candidatos independentes, que não sejam republicanos nem democratas.
O condado de Yuma, onde ele vive, ilustra a guinada à direita de parte da comunidade latina, tendência que contribuiu para a vitória de Trump em 2024.
Nessa região do sudoeste dos Estados Unidos, onde o muro na fronteira com o México domina a paisagem, o republicano venceu por uma margem de 20 pontos percentuais.
- "Despertar violento" -
Em Somerton, uma cidade agrícola de população quase inteiramente latina e tradicionalmente favorável aos democratas, cerca de 40% dos moradores votaram em Trump nas eleições de 2024.
O prefeito Gerardo Anaya atribui esse resultado à insatisfação dos moradores com a inflação durante o mandato do democrata Joe Biden, antecessor de Trump, e com a chegada diária de milhares de migrantes à fronteira próxima.
“Foi simplesmente um voto contra o governo Biden”, resume o prefeito de esquerda. Segundo ele, os que apoiaram o republicano enfrentam agora um “despertar violento”.
Nessa pequena cidade cercada por plantações de alface, o estacionamento do único supermercado é tomado por reclamações.
Os moradores ouvidos pela AFP expressaram indignação com o preço da carne assada na grelha, ao estilo mexicano, e com o custo do diesel.
A disparada dos preços dos combustíveis também encareceu um dos poucos passatempos locais: dirigir veículos off-road pelo deserto.
A imagem de Trump como um empresário habilidoso já não convence.
- "Racista" -
"Achei que ele fosse consertar tudo, mas agora não quero mais ter nada a ver com ele", confessa um jardineiro sob condição de anonimato.
O número de migrantes na fronteira diminuiu drasticamente. Ainda assim, esse homem de origem mexicana tolera as operações de fiscalização que resultam na expulsão de muitos imigrantes sem antecedentes criminais.
"Ele disse que iria perseguir os criminosos. Não foi isso o que aconteceu. Ele é racista, e ponto final", denuncia.
A desilusão do eleitorado latino com Trump está amplamente disseminada, segundo pesquisas nacionais. Os democratas esperam capitalizar esse descontentamento para recuperar o controle do Congresso em 3 de novembro.
Mas, em Somerton, a decepção com o trumpismo não significa necessariamente uma volta à esquerda: o jardineiro, por exemplo, pensa em se abster.
Em sua barbearia, Jaime Sánchez continua indeciso. Aos 52 anos, o barbeiro votou em Trump por sua oposição ao aborto e seu apego aos "valores familiares".
No entanto, admite estar perplexo com a política migratória do presidente, que expulsa pais e mães sem antecedentes criminais e corre o risco de separá-los de seus filhos americanos.
"Quando uma família não está unida, há mais perigos: mais gangues, mais drogas, porque não existe uma figura de referência para orientá-los", afirmou Jaime.
"Vejo muita insatisfação", diz José Manuel Castro, pastor evangélico da cidade vizinha de San Luis, que prevê um voto de protesto por parte de seus fiéis.
C.Jaggi--BD